O amor nunca é planejado nem previsto, simplesmente acontece. Não há limite de lugar ou raça. Ele transcende todas as fronteiras e se recusa a ficar preso a regras, leis e opiniões pessoais. Então, por que parece haver uma pressão sobre o amor na China continental? Por que existem regras e limitações definidas para relações amorosas entre estrangeiros e chineses locais?

Por que razão os casais ficam divididos entre serem identificados como família ou serem vistos apenas como um estrangeiro casado com uma pessoa chinesa? Será assim em todo o mundo? Será assim na China num futuro distante? Será uma medida estratégica das autoridades para reduzir os casamentos inter-raciais na China continental? O preço que se paga por se apaixonar por uma pessoa chinesa.

Em 14 de janeiro de 2019, entre 19h30 e 21h, Kyle Hadfield, um canadense que vivia na China havia 13 anos, realizou uma conversa muito íntima com chineses e outros estrangeiros sobre o preço que precisa pagar por ter se apaixonado por sua esposa chinesa, natural da província de Hunan, com quem estava casado havia três anos e meio. A conversa se concentrou nas experiências dele como homem casado na China, no preconceito que presenciou ao tentar compartilhar essas experiências na esperança de mudança e nas principais diferenças entre a China e outros países, especialmente o Canadá, seu país de origem.

O principal destaque da palestra, porém, ecoou o visto chinês de cônjuge e suas limitações atuais para estrangeiros que desejam permanecer no país, contribuir e equilibrar a vida familiar.

Segundo a Visa in China, uma agência conceituada de processamento de vistos com 10 anos de experiência, o visto Q é emitido para estrangeiros casados com um cidadão chinês. Ele se divide em duas categorias principais: Q1 e Q2. O visto Q1 é emitido para familiares de cidadãos chineses ou de estrangeiros com residência permanente chinesa que pretendam permanecer na China por mais de 180 dias. Já o visto Q2 é emitido para quem pretende visitar parentes que sejam cidadãos chineses residentes na China ou estrangeiros com residência permanente, por um período previsto de até 180 dias.

“Membros da família” refere-se a cônjuges, pais, filhos, filhas, cônjuges de filhos ou filhas, irmãos, irmãs, avós, netos, netas e sogros. Kyle atualmente possui um visto Q2, que o obriga a deixar o país e sua família a cada 90 dias. Além do custo recorrente das viagens, que se acumula com o tempo, e da humilhação de ainda ser visto como “apenas mais um estrangeiro que entra e sai”, mesmo já tendo laços familiares no país, o visto de cônjuge não permite trabalhar.

Claro, você pode fazer alguns trabalhos como freelancer aqui ou ali; pode até criar uma empresa e deixar o cônjuge chinês ser a face do negócio, como ocorre muitas vezes, mas isso não é aprovado pelas autoridades chinesas e pode resultar em penalidades graves por uso indevido do visto. Como um homem pode então sustentar a família se não tiver permissão para trabalhar? Como pode permanecer no país para cuidar dos seus se um documento oficial no passaporte pede educadamente que saia a cada 90 dias? Como pode provar suas contribuições?

Alguns podem dizer: “Por que não sair do visto de cônjuge e obter um visto de trabalho?” Alguns sugeriram isso na conferência organizada por ele. Muitas vezes, essas sugestões vêm de pessoas desconectadas do principal problema, que não são casadas com um cônjuge chinês e, portanto, parecem não entender que a questão do visto de cônjuge na China nunca é simples nem definida em preto e branco.
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Não dá para ignorar que o visto de cônjuge precisa melhorar. Para ajudar nesse processo, Kyle continua tratando da questão e representando diversos estrangeiros na mesma situação. O que precisa mudar? Primeiro, estrangeiros casados com cidadãos chineses precisam ser reconhecidos como tal; na prática, um cônjuge não deveria receber um período fixo para passar com a família a cada ano. Segundo, deveria haver um caminho claro que permitisse a um estrangeiro casado com um cidadão chinês trabalhar com esse visto. Por que diabos um estrangeiro não pode trabalhar sendo cônjuge? Não faz sentido que as duas coisas andem juntas?
Ninguém está sugerindo que a China imite, nas mesmas proporções, outros países e seus métodos de lidar com a imigração, pois como ela poderia então continuar sendo autenticamente a China que todos amamos? O que se pede, porém, é que as políticas de visto atualmente em vigor sejam reavaliadas e que sejam criadas disposições adicionais para as particularidades de cada caso.
Em conclusão, é preciso haver consistência entre as províncias, com um toque de flexibilidade, pois cada caso de visto pode ser diferente, especialmente quando envolve casamentos inter-raciais na China continental. Kyle continua defendendo essa causa na esperança de que a voz de cada cônjuge estrangeiro finalmente seja ouvida, mas, enquanto isso, continua pagando o preço de ter se apaixonado por uma pessoa chinesa. A pergunta é: o amor deveria mesmo ter esse preço?
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Publicado originalmente na conta oficial do WeChat (ExpatRights):
